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27 de fev de 2015

A ética da riqueza

Recebido por e-mail.

O historiador americano diz que as tradições de
um povo são tão importantes para a economia
quanto
 os recursos materiais
Carlos Graieb

"Se o Brasil se dividisse em dois, o Sul teria chances de ser desenvolvido"
Antonio Milena
Para o historiador americano David Landes, a humanidade se divide em duas classes: a dos que vivem para trabalhar e a dos que apenas trabalham para sobreviver. "Quanto mais pessoas do primeiro tipo houver, mais chances uma nação terá de sair ganhando no jogo da globalização", diz ele. Landes tem 75 anos. Em décadas de trabalho como professor da Universidade Harvard, nos Estados Unidos, ele se dedicou a desenvolver a idéia lançada pelo pensador alemão Max Weber de que a cultura e os valores de um povo são tão ou mais importantes para o seu crescimento econômico do que os fatores materiais. Suas teses ganharam forma de livro em 1998 e deram notoriedade ao autor. Escrito com verve e lidando com uma vasta quantidade de informações, A Riqueza e a Pobreza das Nações alcançou a lista de mais vendidos em diversos países, inclusive o Brasil, onde foi lançado pela Editora Campus. Na semana passada Landes visitou São Paulo para uma série de palestras, a convite da Fundação Armando Álvares Penteado e do Instituto Fernand Braudel, e deu a seguinte entrevista a VEJA.
Veja – Quais são as causas da riqueza e da pobreza das nações?
Landes –
 Não há dúvida de que fatores "clássicos", como o acesso a recursos naturais ou mão-de-obra, são importantes. Também estou certo de que a geografia e o clima podem ser determinantes, embora muita gente não concorde com isso. Mas eu gostaria de insistir em uma variável pouco lembrada: a cultura. Ela é preponderante no sucesso material de algumas nações e no insucesso de outras. Falo de cultura em sentido amplo. Não me refiro a obras de arte, mas aos valores e atitudes vigentes numa sociedade. Foi por prezar a liberdade individual, a curiosidade e a criatividade, e por assumir uma atitude positiva com relação ao trabalho, que a Europa Ocidental tomou a dianteira na corrida pelo desenvolvimento, 500 anos atrás. Fora da Europa, os países que assimilaram esses valores, como os da América anglo-saxônica, ou dispunham de tradições semelhantes em sua própria cultura, caso dos asiáticos, entraram para o clube dos vitoriosos.
Veja – Assim como o pensador alemão Max Weber, o senhor diria que o espírito protestante está diretamente ligado à ascensão do capitalismo?
Landes –
 Certamente. As outras religiões monoteístas, incluindo o judaísmo, ao qual pertenço, fazem da pobreza uma virtude. Quase toda a história da cristandade inclui uma louvação da pobreza: os pobres vão para o céu, enquanto a riqueza é uma forma de corrupção. Nos países islâmicos, a pobreza é considerada um antídoto para os modos, o luxo, a auto-indulgência do Ocidente. O protestantismo foi importante por causa de sua atitude positiva com relação ao trabalho e ao enriquecimento. Também foi importante porque desde o começo os protestantes discordaram e discutiram entre si. O protestantismo era na origem pluralista, enquanto o catolicismo sempre foi centralizador.
Veja – E no que esse aspecto centralizador atrapalhou o desenvolvimento?
Landes – 
O catolicismo não apenas tinha uma atitude ambivalente com relação aos empreendedores como também segregava os que pensavam diferente. Na sociedade colonial, comandada por espanhóis e portugueses, a imigração de europeus do norte era evitada a todo o custo. Imperava o fechamento. Além disso, o homem que vencia nos negócios era incentivado a retirar-se para uma vida aristocrática e não esperava que seus filhos repetissem seu itinerário de trabalho. Empreendimentos são realizados por pessoas que vivem para trabalhar, e não por aquelas que trabalham para viver. É preciso ter prazer no trabalho para tornar-se um empresário bem-sucedido.
Veja – O Brasil é mesmo "o país do futuro"?
Landes – 
Acho que o Brasil vai conseguir diminuir suas taxas de pobreza. Quanto a tornar-se um dos países mais desenvolvidos, isso é outra história. Isoladamente, a Região Sul do país teria boas chances.  
Veja – O senhor está sugerindo que o país se divida em dois?
Landes – 
Estou dizendo que se o Sul se separasse do Norte teria boas chances de alcançar os países mais avançados. Sei que as pessoas logo vão pensar em coisas do tipo: mas como assim, abrir mão dos infindáveis recursos da Amazônia? Pois eu lhe digo que, se vivesse em São Paulo, não me preocuparia muito com o destino do Amazonas. Minerais? Madeira? Tudo isso pode ser comprado. Não é preciso ser dono desses recursos. É mais fácil comprar e vender do que ser proprietário. Em nossa época, não existe nenhuma virtude intrínseca, política ou econômica, em manter um grande território e ser uma grande unidade.  
Veja – Os Estados Unidos deveriam, então, abrir mão do Estado associado de Porto Rico, por exemplo?
Landes –
 Não tenho a menor dúvida que sim. Se a população de Porto Rico votasse pela independência com relação aos Estados Unidos, não haveria nenhum bom motivo para que nós, americanos, permanecêssemos no país. Acho também que os russos estão loucos em fazer o que fizeram na Chechênia. O imperialismo e o expansionismo foram constantes na história do século XIX. Mas, na passagem do século XX para o XXI, numa era de comércio global livre, não há nada que nos obrigue a pensar que maior é melhor. Europeus e japoneses aprenderam essa lição e se deram muito bem.
Veja – Ao longo da década de 90, falou-se muito em "consenso de Washington" ou "consenso neoliberal". O senhor acha que existe realmente consenso no campo da economia?
Landes –
 Creio que o único consenso existente é no que diz respeito à utilidade do livre comércio. É notável observar nos Estados Unidos, por exemplo, a concordância cada vez maior em torno da idéia de que o comércio com a China é desejável. Mesmo os republicanos, mesmo os visceralmente anticomunistas, têm defendido essa idéia. O que mostra que empreendimentos econômicos não são uma questão de ideologia. Tudo que os empreendedores querem é fazer dinheiro. Quando vêem um país onde é lucrativo investir, eles investirão, não importa quem esteja comandando o show.

Veja – Os Estados Unidos, no entanto, mantêm barreiras tarifárias contra vários produtos brasileiros.
Landes –
 Pois deveriam derrubá-las. O único argumento protecionista que faz algum sentido é o da indústria incipiente. Para desenvolver internamente uma indústria nova, você precisa protegê-la de alguma forma, para que não seja esmagada pela concorrência. Foi o que os brasileiros fizeram nos anos 80 com relação à informática. Mesmo assim o argumento é perigoso, porque o protecionismo é um péssimo hábito, que tende a criar raízes. Muito tempo depois de uma indústria ter crescido, as pessoas querem manter as tarifas de proteção.
Veja – Recentemente, o Fundo Monetário Internacional passou a mostrar preocupação com causas sociais. Qual será o impacto disso?
Landes – 
Talvez me chamem de cínico, mas creio que a razão por trás de muitas ações e palavras desses organismos internacionais é a simples gratificação de se sentir virtuosos doando fundos e recursos aos países pobres. Ações desse tipo podem aliviar a miséria e melhorar um pouco a expectativa de vida em alguns lugares. Mas existe uma diferença entre diminuição da miséria e desenvolvimento. A lacuna de desenvolvimento entre ricos e pobres continua a crescer. Não sei quantas gerações mais terão de passar sobre a Terra para que isso mude.
Veja – Em seu livro, o senhor fez altas apostas no Sudeste Asiático. Mas, nos últimos anos, essa região atravessou uma séria crise e os sinais de recuperação são incertos. O senhor mantém a sua aposta?
Landes –
 Sim, mantenho. A Ásia vai continuar sendo um dos maiores centros de crescimento do mundo, pois as bases culturais do crescimento estão presentes lá. Os asiáticos têm um profundo senso de responsabilidade, são trabalhadores dedicados. Nesse período, foram vítimas da conjuntura global.
Veja – Fala-se muito que, com a globalização, os Estados nacionais perderam poder. Quando o senhor diz que países asiáticos foram vítimas da conjuntura global, está corroborando essa idéia?
Landes –
 Não. Eu não acredito que os Estados nacionais perderam toda a importância com a globalização, nem que as comunidades locais estejam indefesas diante do que vem de fora. Veja o caso da Malásia. Eles adotaram uma atitude bastante inflexível diante de organismos internacionais como o FMI, recusando-se a adotar as regras dos gerentes do dinheiro internacional. Nem por isso afundaram. Hoje, há muitas pessoas prontas a emprestar novamente para a Malásia.  
Veja – E a China?
Landes –
 A China é uma região de risco. Se você quer investir seu dinheiro com segurança, deve fazê-lo em um país governado por leis, não por homens. A China é governada por homens, que ficam muito nervosos vendo toda a movimentação ocasionada pelo crescimento do comércio livre em algumas regiões do país.  
Veja – Em muitos países da Ásia, o desenvolvimento econômico se deu graças à utilização de métodos autoritários pelos governantes. O que acha disso?
Landes – 
Podemos voltar ao caso da Malásia. Lá, boa parte da economia é operada por uma classe empreendedora formada sobretudo por expatriados chineses, enquanto o governo, de fato autoritário, é comandado por uma elite local. Há precedentes históricos consideráveis para esse tipo de arranjo. Pense, por exemplo, na Alemanha do II Reich. Naquele tempo, a burguesia deixou de lado qualquer ambição de influir no governo ou de usufruir de um comando mais democrático, em troca da liberdade na condução da economia e oportunidade de criar cartéis, impor barreiras protecionistas e outras medidas desse tipo. Eu creio que esse tipo de arranjo só é sustentável durante algum tempo. Não pode haver capitalismo verdadeiro sem democracia real. E creio que, felizmente, o capitalismo tende a promover as liberdades individuais e instituições democráticas.  
Veja – A esquerda diria o contrário.
Landes –
 O capitalismo supõe desigualdades de riqueza e estas, por sua vez, podem se traduzir em desigualdades de poder. Até aí, concordamos. Mas, no que diz respeito à promoção de liberdades e oportunidades para todos, acredito firmemente que o capitalismo está muito à frente de todas as outras formas de organização já experimentadas.  
Veja – A corrupção governamental sempre foi mencionada como uma das causas da pobreza em países como o Brasil. O que dizer então do escândalo que acaba de estourar na Alemanha envolvendo uma das figuras mais proeminentes da política européia, o ex-chanceler Helmut Kohl?
Landes – 
Confesso que o caso de Kohl me surpreendeu. Mas a moral é simples: em todos os lugares e em todas as épocas, sempre houve quem achasse mais fácil tomar dinheiro do que fazer dinheiro. A política favorece aqueles que conseguem parecer bons, mesmo que não sejam. Às vezes, a falta de moral aparece em questões de dinheiro. Noutras vezes, em questões de sexo. Definitivamente, a política não é uma esfera da vida onde deveríamos procurar pela virtude.  
Veja – Fala-se muito em liberdade de comércio, mas quando o assunto é liberdade na circulação de pessoas o discurso é outro. Basta ver os movimentos de direita na Europa contra os imigrantes. Qual é sua opinião?
Landes –
 Meus avós chegaram aos Estados Unidos como imigrantes. Eu creio que as portas nunca deveriam ser fechadas. É claro que algum controle é necessário. Mas não fechamento. Os imigrantes são uma fonte potencial de energia. Nos Estados Unidos, um dos grupos mais efetivos em assimilar as técnicas e o conhecimento necessários para ter sucesso na nova economia é o dos imigrantes asiáticos. Na América Latina, os imigrantes protestantes teriam feito toda a diferença. Dito isso, gostaria de ressaltar que a atitude de desconfiança com relação aos estrangeiros não se limita aos países ricos. Veja a África Ocidental: há casos de expulsão maciça na região. É um problema da natureza humana. Isso é algo que aprendi em minha profissão: coisas ruins estão espalhadas por todas as épocas e lugares.  
Veja – Como especialista na história da Revolução Industrial, o senhor acha que hoje estamos mesmo diante de uma nova revolução, baseada na informática e nas tecnologias de ponta?
Landes – 
Sim, acho que podemos utilizar essa palavra. Estamos assistindo a uma mudança profunda. Os países que tiverem a oportunidade de não apenas utilizar mas também de melhorar as novas tecnologias estarão em posição de vantagem na nova economia. Foi essa capacidade que salvou os Estados Unidos depois de anos de estagnação. Os Estados Unidos apostaram na importância do que chamamos de software. O hardware é muito importante. Mas eu creio que a longo prazo é o software que vai dominar. Qualquer um pode aprender como fazer um computador. Ou você pode importar uma fábrica de hardware – correndo o risco de que ela se mude para o vizinho se ele oferecer trabalho mais barato. Mas hoje já temos hardware melhor do que precisamos para muitas tarefas. Por isso, é na área do software que os novos países devem fazer suas apostas atualmente. E isso significa que precisam ter um sistema educacional eficiente e universal. Cingapura conta com uma estrutura universitária muito forte. Talvez a China também possa ser citada como exemplo. A América Latina é uma interrogação – mas, se o continente tem de apostar em algo, é nos investimentos culturais e sociais capazes de criar pessoas aptas a ser inventivas na nova economia. Infelizmente, é o contrário do que países como o México, por exemplo, têm feito. Lá as universidades se encontram em péssimas condições. Se você não tiver cérebros, está acabado.

20 de fev de 2015

Como anda o sonho brasileiro?

(Recebido por e-mail)

Fatores como educação, distribuição de renda, segregação racial, origem familiar e até capital cultural são responsáveis pela mobilidade de classes sociais no país, que avançou, mas ainda precisa crescer mais, segundo especialistas
por Lucas Vasques *

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Recentemente, a Universidade de Harvard, uma das mais tradicionais dos Estados Unidos, desenvolveu uma pesquisa sobre o que está impedindo o povo norte-americano de realizar o chamado Sonho Americano, que pode ser definido como a igualdade de oportunidades, que permite que todos os moradores do país atinjam seus objetivos na vida somente com seu esforço e determinação, além, é claro, de representar a busca de status e de poder aquisitivo maior para aquisição de bens de consumo. O resultado apontou cinco fatores que, atualmente, impedem a ascensão social na terra do Tio Sam: estrutura familiar (crianças filhas de mães solteiras têm, significativamente, menos probabilidade de conseguir mobilidade social); segregação racial e econômica (características importantes das comunidades que não conseguem atingir essa mobilidade); qualidade da educação (nível baixo das escolas em suas comunidades); capital social (comunidades que possuem maiores índices de religiosidade, engajamento cívico e participação eleitoral estão mais propensas à ascensão social); disparidade social (está correlacionada aos baixos níveis de mobilidade social).
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Pesquisa recente, elaborada pela Universidade de Harvard, indica fatores que impedem a população dos EUA de realizar o Sonho Americano
Diante desse quadro, é possível traçar um paralelo com a realidade atual do Brasil? Para o professor Carlos Antonio Costa Ribeiro, PhD em Sociologia e pesquisador do Instituto de Estudos Sociais e Políticos (IESP) da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ), a pesquisa de Harvard foi feita em comunidades pobres e usando métodos estatísticos para determinar os fatores relacionados às chances de mobilidade ascendente dessas pessoas. "Entre essa camada da população, alguns conseguem escapar da pobreza e outros não. O trabalho mostrou que certos fatores são importantes, como por exemplo: a estrutura familiar, a segregação racial, a qualidade da educação e as redes de relações sociais dos indivíduos (capital social). Também sabemos que esses fatores são importantes no Brasil. Dentre eles, o mais relevante é a educação. Sem ela, escolaridade e conhecimento adquirido em instituições de ensino, é praticamente impossível sair das classes mais baixas. É claro que há pessoas que conseguem subir na vida sem educação e escolaridade. Por exemplo, jogadores de futebol, artistas, músicos etc. Algumas vezes, conseguem uma significativa ascensão social sem ter escolaridade alta. Certos empreendedores também conseguem isso, por meio de negócios. Contudo, para a grande maioria da população, a forma mais eficiente de obter ascensão social é por intermédio do sistema educacional."
O mais relevante é a educação. Sem ela, escolaridade e conhecimento adquirido em instituições de ensino, é praticamente impossível sair das classes mais baixas. É claro que há pessoas que conseguem subir na vida sem educação e escolaridade
As ocupações e posições mais bem remuneradas (em média) no mercado de trabalho, afirma o professor, são aquelas que exigem algum tipo de educação formal. "Por exemplo, é impossível ser engenheiro, médico ou torneiro mecânico sem passar por algum tipo de escola (de ensino médio ou superior). Portanto, para ter mobilidade ascendente, a educação é fundamental. Além desse aspecto, existem diversos fatores sociais que dificultam ou contribuem para a mobilidade social. Sabemos, por exemplo, que as condições econômicas, sociais e culturais das famílias onde as pessoas crescem são fundamentais. Essas condições influenciam, de diversas formas e desde a infância, as chances de mobilidade social dos indivíduos. Famílias bem estruturadas, em que pai e mãe se dedicam aos filhos, ajudam na mobilidade social, por exemplo. O nível educacional dos pais (às vezes, usado como uma medida indireta do que os sociólogos costumam chamar de capital cultural) é fundamental para que as pessoas consigam ascender socialmente.
Famílias bem estruturadas, em que pai e mãe se dedicam aos filhos, ajudam na mobilidade social, por exemplo. O nível educacional dos pais (às vezes, usado como uma medida indireta do que os sociólogos costumam chamar de capital cultural) é fundamental para que as pessoas consigam ascender socialmente
Divulgação
Costa Ribeiro: "A pesquisa de Harvard foi feita em comunidades pobres e usando métodos estatísticos para determinar os fatores relacionados às chances de mobilidade ascendente"
Ribeiro cita outro exemplo: "Às vezes, observamos pessoas que vêm de famílias com pouco capital econômico, mas muito capital cultural (os pais têm alguma educação formal), terem mais chances de subir na vida do que aqueles que vêm de famílias em que os pais não estudaram. Esses fatores são muito importantes, embora seja muito comum a acumulação de características ou capitais nas mesmas famílias. Quando pais ou mães têm mais escolaridade também tendem a ter mais renda ou alguma riqueza. Embora renda e educação, por exemplo, sejam coisas distintas, elas estão altamente correlacionadas. Alguns cientistas sociais e economistas opõem esses fatores, mas na verdade elas são complementares".
Portanto, continua o sociólogo, características das famílias onde as pessoas crescem e da escolaridade formal que recebem são os principais fatores determinantes para as chances de mobilidade dos indivíduos. "É preciso melhorar o sistema educacional, mas também as condições das famílias. As duas coisas são importantes. Por um lado, é fundamental diminuir a desigualdade social (que pode ser medida pelas diferenças de renda, ocupação e educação dos pais dos indivíduos) que caracteriza as famílias em que as pessoas crescem. Por outro, é importantíssimo investir na qualidade da educação adquirida nas escolas, ou seja, é necessário diminuir a desigualdade que existe na qualidade da educação oferecida para as crianças e jovens. Sabemos que crianças que frequentam boas escolas têm chances muito maiores de mobilidade social do que aquelas que vão a escolas ruins."
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Pastore: "No passado, o grosso da mobilidade era entre pessoas de origem rural, que vinham para as cidades. Hoje, a maior parte se dá na própria cidade"
Mas, afinal de contas, a definição de que um cidadão pertence a determinada classe social está vinculada ao acesso a qualquer tipo de bem ou recurso ou há outros aspectos que determinam o fato? Segundo o professor, há um grande debate sobre a questão das classes sociais no Brasil. As posições são, por vezes, colocadas em planos antagônicos. "Entretanto, em minha opinião, não há, realmente, uma oposição. Por exemplo, alguns economistas e o próprio governo usam a renda familiar per capita e/ou do trabalho para definir as classes sociais, ou econômicas, como costumam dizer. Essas abordagens mostram que houve uma grande expansão do que chamam de 'nova classe média' no Brasil. Em contraste, alguns sociólogos afirmam que o mais importante são as características culturais, e até afetivas, dos indivíduos mais pobres e dos mais ricos. Enquanto os pobres não têm o capital cultural necessário para ser aceitos nas camadas mais altas, os ricos já trazem esse capital de suas famílias de origem. Em nosso país, alguns sociólogos e economistas opõem, de forma muito forte, a visão sociológica da visão econômica sobre o que seriam as classes sociais. Esses autores opõem renda, ocupação (ou posição no mercado de trabalho) e cultura como sendo a principal forma de diferenciar as classes sociais. Também contrastam métodos quantitativos de análise a abordagens mais simbólicas e de interpretação dos significados, para analisar as situações de classe no Brasil", avalia Ribeiro.
"Minha opinião é completamente distinta. Não vejo oposição entre esses fatores. Ou seja, a posição de classe das pessoas e famílias envolve tudo: renda, riqueza, cultura, educação e ocupação. A estratificação social de qualquer sociedade é multidimensional. As famílias são diferentes e desiguais não só em um único aspecto, mas, sim, em vários. Muitas vezes, esses aspectos estão altamente correlacionados, do ponto de vista estatístico, o que faz com que estudos sobre a desigualdade de renda, por exemplo, sejam uma maneira aceitável (porém, não perfeita) de descrever posições de classe na sociedade", opina o professor da UERJ.



A segregação racial ainda é um dos pontos mais determinantes para a dificuldade de mobilidade de classes sociais
Para ele, é importante lembrar que no Brasil há uma forte concentração de riqueza, educação e renda no topo da hierarquia social. Ou seja, o que se costuma entender por classe média alta é muito diferente do que vem sendo chamado de "nova classe média". "De certa forma, esta última está mais perto dos pobres do que da classe média alta. A desigualdade no Brasil é caracterizada por forte concentração no topo, e menos desigualdade entre o meio e a base da pirâmide social."
Alguns economistas e o próprio governo usam a renda familiar per capita e/ou do trabalho para definir as classes sociais. essas abordagens mostram que houve uma grande expansão do que chamam de "nova classe média" no Brasil. em contraste, alguns sociólogos afirmam que o mais importante são as características culturais, e até afetivas, dos indivíduos mais pobres e dos mais ricos
Apesar das divergências em relação à definição de classes sociais, há, segundo Ribeiro, alguns aspectos que se podem medir melhor do que outros e, por isso, existem condições de se fazer estudos mais representativos, usando essas características, às quais se podem mensurar. "É muito difícil medir motivações e emoções das pessoas. Certamente, essas coisas são importantes para a mobilidade social. Alguns estudos mostram que os cuidados que crianças menores de cinco anos recebem são fundamentais para a mobilidade social. Por exemplo, crianças que tiveram mães atenciosas e cuidadosas, nos primeiros anos da infância, tendem a ter mais chances de mobilidade social ascendente (mesmo partindo de famílias pobres) do que crianças que não tiveram esse tipo de estímulo em sua primeira infância. Acho que essas pesquisas estão mostrando que aspectos afetivos e emocionais são fundamentais para a mobilidade social. Esses estudos foram feitos, principalmente, por economistas e psicólogos. E, muitos deles, são bem sofisticados, do ponto de vista estatístico. Os sociólogos deveriam prestar mais atenção a esse tipo de pesquisa, ao invés de, puramente, desqualificar estudos quantitativos, dizendo que são pseudocientíficos", critica.
E ele não para por aí: "Os economistas, por sua vez, também poderiam prestar mais atenção em pesquisas qualitativas e estudos de casos, feitos por alguns sociólogos e antropólogos. Entrevistar as pessoas é muito importante para saber como se sentem em relação às suas condições de classe e chances de mobilidade. Embora essas entrevistas não possam, em geral, ser generalizadas, porque não vêm de amostras representativas da população, elas podem ser muito importante para ilustrar alguns pontos relevantes e levantar hipóteses de análise. O problema é que alguns sociólogos tendem a desqualificar pesquisas quantitativas, e os economistas não consideram as qualitativas como relevantes. Acho importante combinar as perspectivas de forma aberta, ao invés de colocá- las como ontologicamente distintas. Essas visões acirradas não ajudam a entender as situações de classe e a desigualdade na sociedade brasileira".
Em suma, afirma o professor, os estudos sobre desigualdade de renda são muito importantes e ajudam a entender a estratificação social na sociedade brasileira. "Entretanto, também podem ser complementados por estudos mais qualitativos sobre emoções e afetividade das pessoas, nas diferentes situações de classe. Essas perspectivas podem ser complementares. Classes sociais podem ser definidas por uma combinação de renda, riqueza, capital cultural e diversas outras características."
É importante lembrar que, no Brasil, há uma forte concentração de riqueza, educação e renda no topo da hierarquia social. Ou seja, o que se costuma entender por classe média alta é muito diferente do que vem sendo chamado de "nova classe média". De certa forma, esta última está
mais perto dos pobres do que da classe média alta
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Há pessoas que conseguem subir na vida sem educação e escolaridade, como, por exemplo, jogadores de futebol, artistas e músicos
"Nova classe média"?
Informações oficiais dão conta de que 30 milhões de brasileiros alcançaram a ascensão social nos últimos anos. No entanto, segundo alguns especialistas, o fato não teria produzido uma "nova classe média", mas, sim, uma classe social diferente, pelo fato de que a classe média estabelecida é a dominante, pois se forma pela apropriação de capital cultural. "Houve aumento da renda média e diminuição da desigualdade no Brasil. Isso é inegável e é positivo. O que vem sendo chamado de 'nova classe média' é esse grupo, que melhorou sua renda nos últimos 10 ou 15 anos, o que também é muito positivo. No entanto, chamar esse grupo, que ascendeu em termos de renda, de 'nova classe média' é certo exagero. Ou melhor, é uma liberdade linguística. Essa parcela avançou, mas continua tendo nível educacional muito baixo, por exemplo. Sem educação de qualidade, a maioria jamais chegará ao que costumamos, popularmente, chamar de 'classe média alta'. O segmento mais próximo de uma espécie de elite é constituído por profissionais e administradores que possuem (a maioria, pelo menos) educação de nível superior."
Segundo o sociólogo, educação de nível superior não é sinônimo de "capital cultural", mas é uma forma de adquiri-lo. "Não há dúvida de que esse capital cultural é fundamental, mas acho que é possível atingi-lo mesmo vindo de uma origem de classe muito baixa. Temos alguns exemplos de pessoas que conseguiram isso, embora a grande maioria dos pobres não alcance posições mais altas na estrutura de classes da sociedade brasileira. Há uma forte correlação entre classe de origem (da família) e classe de destino (posição que os indivíduos alcançam). A boa notícia, contudo, é que a força desse processo não é mais a mesma no Brasil. Minhas pesquisas indicam que essa correlação está diminuindo, desde a década de 1970 até hoje. As coisas estão melhorando, embora o Brasil ainda seja um dos países mais rígidos do mundo em termos dessa correlação entre classes de origem e de destino (seja medindo por renda dos pais e dos filhos ou por ocupação ou por educação)."
É muito difícil medir motivações e emoções das pessoas. Certamente, essas coisas são importantes para a mobilidade social. Alguns estudos mostram que os cuidados que crianças menores de cinco anos recebem são fundamentais para a mobilidade social
Em relação à ascensão social significativa de um bom número de brasileiros nos últimos anos, Ribeiro reconhece, mas se diz contrário às visões triunfalistas. Para ele, a desigualdade social e de classes no nosso país continua sendo enorme. "Não há por que acharmos que estamos vivendo uma situação maravilhosa, embora, também, devamos admitir que as coisas estão melhorando bastante em termos sociais. Mesmo assim, o Brasil é um dos países de renda média com o maior percentual de mão de obra sem qualificações mínimas. Apesar de nosso sistema educacional ter se expandido muito, nas últimas décadas, ainda deixa a desejar. Também houve a criação de inúmeras posições de empregos melhores (com carteira assinada). Entretanto, ainda há a presença marcante de um enorme setor informal, além de empregos que não exigem qualificações. Há muito o que melhorar e, por isso, não há motivo para triunfalismo. Contudo, acho que não podemos negar que houve alguma melhora. Em suma, prefiro uma posição mais moderada. Nem triunfalismo, nem pessimismo. É melhor ser realista e observar o avanço que ocorreu e o que ainda deve avançar. Melhorar a educação e diminuir a desigualdade de renda são os pontos fundamentais", completa.
Meritocracia
Na opinião de Rafael Guerreiro Osório, do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA), o trabalho desenvolvido pela Universidade de Harvard não mostra nada de novo. Para ele, todos os fatores indicados na conclusão são determinantes clássicos para manter as pessoas na camada social inferior. No entanto, esse tipo de pesquisa é importante e deve ser feita regularmente, porque o quadro poderia ter mudado. Nos Estados Unidos, segundo Osório, é ainda mais importante ter esse controle, em função da necessidade de se concretizar o chamado Sonho Americano, que é muito forte na cultura norte-americana.
"O tema é um dos clássicos da Sociologia e traz um debate muito interessante. Ainda hoje, com a justificativa da evolução da democracia liberal e da economia capitalista, ao longo dos anos, a tese que predomina é a da meritocracia. Essa teoria justifica certa desigualdade social, pois só quem tem méritos e se esforça o suficiente consegue ascender socialmente. O que acaba sendo uma ilusão. Um exemplo é que um cidadão pode ser um gênio, mas se for negro e tiver nascido no interior do sul dos Estados Unidos jamais vai ter oportunidades de ascensão. No entanto, ainda se acredita muito nisso. A desigualdade racial é um dos grandes problemas que impedem o desenvolvimento e a meritocracia", analisa Osório.
No Brasil, afirma o especialista, também se pensa que há meritocracia. "A prova disso é que, frequentemente, alguma revista semanal estampa, em sua capa, alguém que tenha vindo de baixo e, em função do próprio esforço, conseguiu atingir uma posição profissional de destaque na sociedade. A verdade é que são exceções. Esses casos chamam muito a atenção justamente porque fogem à regra. No início dos anos 2000, a doutora em Sociologia Celi Scalon, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), desenvolveu uma pesquisa internacional sobre tolerância à desigualdade. O Brasil apareceu como um dos países mais tolerantes em relação a esse problema."
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Crianças que tiveram mães atenciosas e cuidadosas, nos primeiros anos da infância, tendem a ter mais chances de mobilidade social ascendente
Osório explica que a mobilidade social pode ser estrutural, a que mede o deslocamento na distribuição das ocupações, em função da industrialização e de uma sociedade mais urbana; e a de circulação, que é a que nos interessa mais, pois inclui o movimento ascendente e descendente, devido a outros fatores, que não mudanças na estrutura ocupacional. "É também chamada de troca, porque, conceitualmente, os que sobem são substituídos pelos que descem. Nessse caso, há um trânsito grande. Mas nem sempre isso ocorre, porque um sujeito que pertence à elite e não tem ou não desenvolve habilidades profissionais não necessariamente cai, e o de baixo, que se esforça, pode não conseguir subir. O problema central é que todos devem ter as mesmas oportunidades."
Os estudos sobre desigualdade de renda são muito importantes e ajudam a entender a estratificação social na sociedade brasileira. Entretanto, também podem ser complementados por estudos mais qualitativos sobre emoções e afetividade das pessoas, nas diferentes situações de classe. Essas perspectivas podem ser complementares
No Brasil, segundo Osório, inegavelmente, houve um aumento considerável na renda média, diminuição da desigualdade e melhora na distribuição de renda, o que proporciona aumento do padrão. "O exemplo principal é o que ocorreu com as empregadas domésticas, que tiveram uma brutal melhoria na qualidade de vida, com mais renda e conquista de direitos trabalhistas. Mas, em contrapartida, seu lugar na sociedade continua o mesmo. Ninguém que faz parte da elite, na hora de decidir sobre sua futura atividade profissional, escolhe ser empregada doméstica. Na verdade, apesar de não termos muitos estudos recentes, no meu entender há indícios fortes de que a situação está melhorando. Um dos fatores determinantes é o maior acesso ao ensino superior. Precisamos avançar muito, mas houve uma expansão grande, com a redução da desigualdade de oportunidades de acesso. Há mais vagas, o que acarreta mais gente incluída. Existe, ainda, a questão das cotas e os financiamentos estudantis para instituições particulares de ensino. Sem dúvida, isso elimina uma grande barreira", finaliza.
Para cima
No livro Mobilidade social no Brasil, publicado em 2000, junto com Nelson do Valle Silva, o professor José Pastore, PhD em Sociologia e mestre em Ciências Sociais, observa que a mobilidade social no país era intensa, maior do que em países como Inglaterra, Suíça, Áustria, Alemanha e Itália, com predominância de uma mobilidade para cima. "Penso que o panorama continua hoje em dia, mas em sentido diferente. No passado, o grosso da mobilidade era entre pessoas de origem rural, que vinham para as cidades. Hoje, a maior parte se dá na própria cidade. Mas, em outro sentido, há semelhança. Nos dois casos, o grosso da mobilidade é de curta distância. São pessoas das classes baixas que sobem para a média inferior. A desigualdade diminuiu um pouco, graças à melhoria da educação e do salário mínimo. Contudo, o Brasil ainda é um país bastante desigual."
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As empregadas domésticas tiveram melhoria na qualidade de vida, com mais renda e conquista de direitos trabalhistas. Mas seu lugar na sociedade continua o mesmo

*Lucas Vasques é jornalista e escreve para esta publicação.